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Mercado Wilson Roriz: precariedade e expectativas
É sabido que no Brasil o número de espaços públicos abandonados é enorme, devido à ausência de recursos, falhas de projeto e omissão política. O mercado Wilson Roriz, em Crato (CE), faz parte desses espaços abandonados e deixados às traças, causando prejuízos aos trabalhadores. No entanto, em 18 de maio de 2023, um novo projeto que promete uma melhor infraestrutura foi apresentado pelo prefeito Zé Ailton. Será que de fato essa obra irá se realizar? Nessa reportagem, buscamos saber mais sobre esse descaso.
Descasos e possibilidade de reforma
Uma informação foi divulgada no primeiro semestre de 2017, a cidade do Crato foi contemplada com a construção de duas salas de cinema. O governo municipal escolheu para receber a obra o mercado público Wilson Roriz, localizado na rua Monsenhor Esmeraldo, no centro. Em sua defesa, a prefeitura afirmou que a escolha do espaço ocorreu devido ao mercado ser localizado em uma área próxima a serviços essenciais.
De início, foi solicitado pela prefeitura que os licenciados que lá trabalhavam desocupassem o local em até 15 dias para início das obras do cinema, até então previsto. O projeto não foi adiante, mas esse é apenas um de outros inúmeros descasos que o Mercado público Wilson Roriz e os trabalhadores vêm passando até hoje.
Em 18 de maio deste ano, o Zé Ailton Brasil e o Secretário Municipal de Infraestrutura, Ítalo Samuel, apresentaram o projeto do novo mercado Wilson Roriz. Em uma live nas redes sociais do prefeito, ele garantiu também um equipamento de ponta, que deverá gerar mais de 150 empregos diretos no Crato. Segundo informações da prefeitura, o espaço terá dois pavimentos, e o térreo abrigará 46 boxes destinados aos produtos regionais, sete lojas externas, uma praça de alimentação com 248 lugares padronizados, área de carga e descarga, espaço para realização de shows, feiras e eventos, com a devida acessibilidade. Para isso, estão previstos investimentos na ordem de R$11 milhões. Mas será que de fato essa obra irá se realizar? Há anos os servidores vêm ouvindo promessas dos órgãos públicos e continuam sofrendo as consequências de trabalhar em situação precária, para sustentar suas famílias.
Projeto da reforma. Fonte: Reprodução/Prefeitura do Crato
A comerciante Cristiana Gomes afirma que no lugar em que iriam ser construídas as salas de cinema, não havia ninguém ocupando, devido à solicitação de saída.
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Quem tinha dois blocos aqui, sai perdendo, como eu, eu só fiquei com um. Tive que doar um para outra pessoa que trabalhava nos espaços de onde foi retirado. E eu perdi dinheiro nisso, porque aqui a gente compra o direito, aí eu perdi um ponto. E onde eles iam construir [as sala de cinema]? Deixaram lá o amontoado. - Cristiana Gomes
Fotos e vídeo: Gabriela Lopes
Cristiana e outros funcionários também pontuam seus descontentamentos em relação à infraestrutura do local e às condições de trabalho, contam que o lugar está abandonado e não atende às suas necessidades. Os banheiros, além de serem sujos e deixarem a desejar, são utilizados por usuários de drogas. Por isso os trabalhadores deixam para fazer suas necessidades fisiológicas em casa ou possuem nos seus boxes um penico como vaso sanitário.




Banheiros do mercado. Fotos: Marcela Gomes
Além do mais, alguns funcionários dizem levar água de casa, pois afirmam que as caixas d'água nunca são lavadas e o espaço é coberto por baratas devido à dedetização precária, o que pode contribuir para a infestação de insetos nocivos à saúde e de ratos, responsáveis pela disseminação de doenças. O poder público até promove em dois e dois anos uma dedetização, depois de muita cobrança da parte dos feirantes. Mas é insuficiênte, pois a proliferação de insetos é grande, por este motivo os trabalhadores do mercado incomodados com a situação, em conjunto realizam à dedetização do espaço de trabalho.
Além do descaso dos órgãos públicos, existem ainda outros problemas relacionados às condições trabalhistas dos funcionários do mercado. Um deles é a falta de fiscalização por parte dos guardas responsáveis por assegurar que os boxes permaneçam intactos após a saída dos comerciantes. Há alguns meses, os servidores foram vítimas de inúmeros furtos, e chegaram a fazer declarações a blogs de notícia, a fim de conseguir chamar atenção da fiscalização.
Na data de publicação desta reportagem, os depoimentos permanecem os mesmos, sobretudo de que os fiscais sequer vão até o local. Aurélio Costa, dono do primeiro box logo na entrada do mercado, relata que ele e sua esposa são os que têm o cadeado do portão.
Há meses é exigido por parte dos trabalhadores o conserto do portão. Ele necessita que mais de duas pessoas se juntem para manuseá-lo, sendo um grande fator de risco para as pessoas envolvidas.
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Porque quem abre somos nós, tanto que a maioria daqui tem chave do portão. Todos entram e saem a hora que quiserem, não tem guarda municipal pra fazer isso aqui.
O que dizem as autoridades
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“Aqui [no Mercado Walter Peixoto], toda hora é briga... A gente pega roubos , teve uma briga grande aqui e teve até faca, mas se o mercado daqui fosse igual de lá [Wilson Roriz], eu vivia no céu” - Mailton Meneses, fiscal da prefeitura.
Em sua justificativa, após ser pressionado por sua ausência no mercado Wilson Roriz, o fiscal e administrador Mailton Meneses, conhecido por todos como "Vaca Magra" afirma não ir “constantemente” ao mercado, pois sente que não há uma necessidade para isso, já que o pessoal de lá é "muito tranquilo" e "não dá dor de cabeça".
Segundo ele, o mercado Walter Peixoto é frequentado por 3 a 4 mil pessoas diariamente, enquanto o Wilson Roriz não é movimentado da mesma forma. No entanto, Mailton Meneses conclui que durante a reforma noticiada há dias pelo prefeito Zé Ailton, se manterá presente para uma maior organização. Inclusive, essa tem sido uma das maiores preocupações: onde os trabalhadores ficaram durante esta reforma?
O engenheiro Ítalo Samuel atua há três anos na Secretária de Infraestrutura (SEINFRA) e está à frente do novo projeto. Ítalo diz que a proposta da prefeitura é um financiamento do Finanza, em parceria com a Caixa Econômica Federal. O secretário adianta que os planos são os mesmos da reforma do Mercado Walter Peixoto, que são: realizar a obra por etapas, dividindo o pessoal e realocando para que ninguém fique sem trabalhar. Além disso, afirmar que a prefeitura irá trabalhar para evitar grandes transtornos durante o processo. Ainda está previsto um investimento de R$ 10 milhões para o mercado Wilson Roriz, no entanto, o projeto em si ainda não foi aprovado, estando em discussão e sujeito à análise por parte da Câmara Municipal. Contudo, a reforma no mercado poderá impactar nos setores do comércio, cultura, lazer, turismo e gastronomia, gerando empregos de forma direta e indireta
Equipe: Gabriela Lopes, Marcela Gomes, Pedro Alves, Selton Angelim
Professor orientador: Ivan Satuf
Reportagem feita para a disciplina de Jornalismo Digital I - 2022.2









